Publicado por: ivanlantyer | maio 12, 2011

Uma descoberta em vôo

Só está atualizado hoje em literatura e em conteúdo aquele que conhece o nome Mia Couto, o escritor moçambicano que escreveu O Último Voo do Flamingo. Devo confessar que para mim os flamingos eram pássaros extraterrestres, feios e sem-graça, dignos de ficarem bem ali onde eu os via: no zoológico. Mas todos nós quando crianças temos uma mente fértil e perdoável, e hoje eu penso de maneira muito diferente, e quem me mostrou a beleza dessas aves foi Mia Couto.

O livro se passa na cidade (se é que se pode chamar de cidade) de Tizangara, um lugar inventado pelo escritor como metáfora da nação Moçambique. Quem conta a história é um tradutor, um rapaz moçambicano que viveu um tempo escondido nas matas durante o fim da guerra de independência e voltou para a cidade quando tudo estava mais tranquilo. Chegando lá recebeu de supetão a proposta de ser tradutor à disposição de Estevão Jonas(o poderoso da cidade) que iria receber delegações da Organizações Unidas para verificar o desaparecimento de seus soldados. É nesse ínterim que surge a figura que marca a maneira do autor se expressar: Quando os soldados desaparecem qualquer coisa poderia ficar como prova de sua morte, mas o que fica é o pênis. Se para você não é cômico ou estranho ler que foi encontrado um órgão ereto sobre um asfalto, então eu não imagino o que possa ser engraçado e estranho. Fato é que o livro gira em torno dessa metáfora, aliás, o livro é completamente metafórico.

Poderia ser qualquer órgão, mas é um pênis do soldado da ONU. Para desbastar essa informação vamos analisar o que é um soldado da ONU em Moçambique. No contexto dessas independências as tropas internacionais foram levadas para salvaguardar a população, seja de revoltas internas, seja de intervenções externas, ao menos é o que se documenta, mas os motivos são muito mais minuciosos. Fato é que o pênis é a materialização do que as intervenções internacionais estão fazendo com o país Moçambique, na figura dos soldados. Por que os pênis ficam sem o corpo? Porque homens e mulheres fazem feitiços para que eles desapareçam, o que sobra é a prova do crime que eles cometeram com as mulheres nativas – eles faziam amor com elas, e muitas delas tinham companheiros que não ficavam nada satisfeitos com isso. A mulher é a representação de uma nação. Não é à-toa que sempre a mulher foi defendida com muros e com fortalezas para manter sua reputação ilibada para garantir ao rei, ao político, ou ao homem que a sua mulher daria filhos dele e não de um outro qualquer. A intervenção de soldados e o sucessivo envolvimento com as mulheres nativas criaram problemas, daí o pênis ficar – ele é uma prova, ele está protegido porque está dentro da proteção da mulher que representa a nação, se o pênis desaparecesse haveria de desaparecer a mulher e por sua vez a nação. Resumindo em poucas palavras: A intervenção globalizadora fode com os países necessitados, sempre foi assim, e dificilmente algo vai mudar.

Mas há outra metáfora fantástica no livro sobre o vôo dos flamingos que inclusive é implementada na história pela mãe do narrador. Tudo começa porque o pai do narrador adorava esses pássaros e ficava triste quando era impelido a caçá-los junto com seus parentes. Provavelmente comovida com a tristeza do garoto que, dentre tantos, não gostava de sacrificar os bichinhos, a sua futura esposa lhe contou uma história dos Flamingos de Apolo que trazem e levam as luzes do sol com seu vôo – por isso não se pode matá-los. Essa é a liberdade, poder voar eternamente; o que nos remete à segunda história dos flamingos contada no livro, a do Flamingo que quis ir além do horizonte e fez o rosáceo céu de crepúsculo. Procurando um significado próprio para essa mensagem dentro da minha interpretação, seria a cultura dos africanos. Eles sempre viveram pacificamente com horizontes, com os céus, com os pássaros; sempre viveram felizes, mas o buraco negro se fez e trouxe as armas que levaram à morte dos flamingos, a falta de esperança de que o dia ainda poderia amanhecer. Talvez seja essa a mensagem afinal: O dia só vai amanhecer realmente quando aquele flamingo que voou até o horizonte para ser imenso, voltar. E ele só voltará trazendo luz para os olhos que já tem luz no coração.

Minha professora de literatura disse que eu divago muito em minhas interpretações, mas como ir fundo se não for ao mais fundo possível? Ainda vou estudar a Guerra de Independência de Moçambique, mas preciso passar no vestibular primeiro.

Ivan Lantyer Neto

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Responses

  1. Oi, Ivan

    Sua resenha ficou muito legal. Boa sorte no vestibular, e espero que depois de passar você tenha mais tempo para pesquisar sobre essa guerra e ler mais livros de Mia Couto 😉

    • Fico muito grato pelo reconhecimento, Diana. Acredite, meu aniversário foi no dia 04 de maio e eu pedi livros de Mia – ganhei três, mas não li nenhum. Mas a vida é assim mesmo: Por mais que nós gostemos de determinadas coisas devemos nos privar delas por algum tempo para poder aproveitá-las em sua plenitude depois.
      Ivan.

  2. […] blog Romamor, o Ivan resenhou O último voo do flamingo, de Mia Couto. No Cubo3, a Deborah falou sobre Na colônia penal, de Sylvain Ricard e […]


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